janeiro 28, 2016

Dia de sol




"Sou brasileira, garota esperta com muitos anos de praia."


Eba! Sol! Piscina! Aí vou eu!

Não posso reclamar. Aqui faz muitos dias lindos, mas se quer pegar uma piscininha tem que programar o horário. Aqui chamo de piscina "time" quando bate sol. 

Elas são construídas nos condomínios para pegarem pouco ou nenhum sol. Isso porque o povo não se expõe aos raios, nem ao bom, muito menos ao ruim. 

Os chineses não gostam de sol, isso é fato. Eles se escondem como podem para manter a pele clara como a Branca de neve. No começo cheguei a pensar que poderia ser por saúde, medo de câncer talvez, mas não. Descobri que é cultural. Ainda hoje o padrão estético do país aponta para padrões da antiga realeza europeia do século XVIII que passava pó de arroz para ficar ainda mais brancos. O pó foi substituindo por cremes de clareamento e qualquer medida para se esconder do sol, questão que ainda está ligado a antigas cresças de ascensão social e provas de que mantém a continuidade da raça sem mistura. 

Como eu sou uma “vira lata” misturada, tenho exclusividade na piscina. Detalhe, o horário de sol é o do almoço. 

_Cuidado com o sol! Alertou uma asiática, em uma viagem.

_ Ela é brasileira. Conhece muito sobre sol. Respondeu a outra antes que pudesse falar algo. 

Sim. Sou brasileira, “garota esperta” com muitos anos de praia. E uma vontade enorme de ficar “negona”. 


Piscina do condominio.

Com vista para o campo de golfe.


Aqui, diferente da praia, não pode tudo não. Tem placa que indica qual o tipo de roupa que você pode acessar a área da piscina. 

E os seguranças ficam de olho. Não acho que adianta muito, ou eles não sabem a diferença. Já vi uma mulher com roupa normal e um homem de cueca samba canção. Não sabiam por que eu olhava. Deve ser a mesma sensação quando olham para mim. Mas meu condomínio é estrangeiro e na placa diz: biquíni e, mesmo de "lacinho", tudo bem! 

Igual à praia são os clãs. Piscina não é lugar de fazer amizade. Nem as crianças interagem e brincam juntas. Muito estranho. Cada uma fica com sua enorme boia -- que morro de vontade de pedir emprestada -- e ficam lá brincando com sua família. Quem está sozinho também permanece. 

Piscina de condomínio no Brasil é sinônimo de gritaria. No final de semana então nem se fala.
Crianças pulando, mãe chamando, pai bebendo. Morei em um condomínio que faziam churrasco e os vizinhos se reuniam para curtir. Não tinha lugar para estender uma toalha, de tanta gente que havia. Aqui é silêncio absoluto. Não tem música, nem na academia. Não tem falatório. Só ouve o cantar dos pássaros e da água caindo da borda infinita. É um “spa”.


Olha mais uma burca aí, gente!

Regra de vestimenta para área da piscina.
Lacinho pode e burca também.
Mas meias e cuecas não! 

Isso é muito comum!
São mangas de lã que usam para cobrir os braços.




janeiro 23, 2016

Estranho no ninho



"Brincamos de esconde-esconde. Onde ela está ele não vai. Ela entra em um cômodo, ele aproveita e corre para outro. "


Sempre soube como era difícil encontrar uma pessoa para limpar sua casa fora do nosso país. Hoje 
percebo como somos mal-acostumados, bajulados e mimados com tantos serviços que o Brasil oferece. Parece até um hotel a céu aberto. Sempre tem um que corre e se oferece para ajudar. 

Do outro lado do mundo... as coisas são apresentadas de uma maneira diferente. Os serviços existem, claro, mas com outro preço a pagar. Além de, na maioria das vezes, ser mais caro, você tem que entender a dinâmica como eles acontecem. Não é tão simples. O que parece simples pode ser a tarefa mais complexa de todas. 

Numa manhã tranquila da semana, falava em conferência com amigas pelo Skype após um delicioso café da manhã. Uma das maneiras que encontramos de matar a saudade e não perder as fofocas.

_ O que ela está fazendo? Pergunta uma._ Ela limpa com essa vassourinha? Pergunta outra._ Ela não vai arrastar o sofá? Arremata a terceira.

Era a Rowena. Filipina, jovem e bonita que me ajuda a deixar a casa em ordem. Foi difícil de encontrá-la. Tiveram outras. 

A primeira ficou apenas 45 minutos e disse que limpou a casa inteira. Ela era “ninja” ou poderia ser o "tazz", aquele monstrinho que rapidamente destruía tudo, ou talvez ela teria uma "varinha de condão" e como num passe de mágica, pronto, tudo pronto. Só que não! Os nossos conceitos de limpeza era bem diferente. 

A segunda ficou mais tempo.

_ Você pode lavar isso aqui, por favor? Marido pediu._ Lavar? Como? _ Lava com água. _ Água? Não, não posso. Água não.

E assim acabou a limpeza. Essa era um gato que corre de água. Certeza! 

A terceira fazia o que queria, vinha apenas na hora do almoço. Até que imploramos para que encontrassem uma filipina. Parece que as filipinas são como nós brasileiras, trabalhadoras e boas de limpeza. 

A quarta, o marido conseguiu uma indicação de fora. Veio algumas vezes, mas foi barrada na entrada pela segurança. Dizem que não podemos trazer pessoas de outros lugares. Temos que trabalhar com apenas as que já fazem serviço no condomínio. 


Vista do campo de golfe da varanda,

Um dia de trabalho.

A busca da filipina durou até minha chegada. O chefe da segurança, com seus um metro e meio de altura e quarenta quilos é o senhor resolve tudo. Nepalês, muito atencioso, quer ser prestativo o tempo todo. Seu Mitra quis agradar logo de cara e apresentou a Rowena.

Tímida, mãe de uma menina, ela veio para Malásia com a família a procura de emprego. Era de um pequeno vilarejo no interior das Filipinas. Nunca tinha conhecido uma cidade grande até chegar a Kuala Lumpur há cinco anos. 

Ela era boa no que limpava, o problema é que não limpava muitos lugares. Gostava de usar uma vassourinha que parece de criança. Era daquelas apenas para  arrastar o lixo até a pá. Depois percebi que em muitos lugares usam a "tal" vassourinha. 

Imediatamente introduzi a vassoura maior, pois quem sabe com cabo maior conseguimos alcançar embaixo da cama. Ledo engano. Tive que arregaçar as mangas e fazer uma faxina junto. Terminei morta, mas com a casa limpa. 

Consegui que usasse os produtos. Tenho certeza que ela não estava entendendo nada. Por que queria usar vinagre? Por causa do meio ambiente, além de quê é um ótimo antibactericida... Desisti de explicar. 

Hoje fico orgulhosa quando vejo tudo empilhado e ela arrastando. Ufa consegui. Mas como disse tudo tem um preço. Rowena entra muda e sai calada. Sempre a convidava para se  sentar a mesa e almoçar conosco. Jamais aceitou. Nem um copo de água toma. Um dia não aguentei e perguntei porque não comia. 

_ Trago comida madame. Elas têm o costume de nos chamar assim. Fiquei morrendo de dó ao saber que entre uma casa e outra, come na área de serviço do prédio. Mas não tem jeito, faz parte da cultura. 

São extremamente subservientes. Acho que desde pequenas aprendem a serem assim. Morro de vontade de ter uma boa conversa, saber sobre o país dela, sobre a vida, mas consigo arrancar poucas palavras com muito custo e vergonha. Chego a me sentir mal de passar metade do dia com ela, muitas vezes sem falar nada. Comecei a me acostumar com o silêncio da Rowena. 


Mas quem não se acostuma e se sente um estranho no ninho é o marido. Ela arrepia quando ele fala bom dia. Nos primeiros dias tive que doutriná-lo. Uma vez ele quis conversar e ela quase morreu. Cada vez mais sua voz diminuía suas palavras ao invés de saírem, entravam na boca. Outra vez esqueceu que ela estava ali e foi tomar café sem camisa. Achei que a perderia, ou de enfarto ou porque correria feito "Forrest Gump". Ela congelou. Tive que brigar com ele. 


Ela não vem quando ele está sozinho em casa. Talvez medo, talvez respeito. Não sabemos. Mas sempre que ele diz oi, ela abaixa a cabeça ri ou faz algum barulho que não entendemos e não responde. 


Todos os dias que a Rowena vem, brincamos de esconde-esconde. Onde ela está ele não vai. Ela entra em um cômodo, ele aproveita e corre para outro. Chega a ser cômico e ele sempre repete: sinto-me coagido dentro da minha própria casa. 


Não abro mão da Rowena, minha quase amiga filipina. Tenho certeza que um dia ainda vamos conversar muito, sentadas tomando chá com bolachas. 


Poucas semanas após escrever esse texto, recebo uma mensagem dizendo que arrumou emprego fixo todos os dias e estava me deixando. Senti nessa intensidade: abandonada. Mas antes de partir a queria 

Rowena escreveu:
_"ma'am thank you so much because you are a good for me, you are best." (Madame, muito obrigada por você ser boa comigo. Você foi a melhor. Talvez, seja isso!) Confesso que meus olhos encheram d'água e salvei a mensagem dela.

Que venha a próxima. Agora a prima...


Vista noturna da piscina.

Vista da cozinha. Fácil cozinhar durante o dia, viu!

janeiro 20, 2016

A Praia



"Qualquer vestimenta pode virar aquática."


Minha maior loucura pela Ásia, sempre foi a praia. Rata de areia, sol e mar, não via a hora de colocar o biquíni e estender a canga para desfrutar de um lindo dia de verão. Mal sabia que por aqui, o desfrutar é um pouquinho diferente...
Começando pelas roupas.

Qualquer vestimenta pode virar aquática. 40 graus, água salgada e nada impede de você dar um mergulho de camisa e calça. Você não está entendendo nada né? Parece bizarro o que estou falando, mas em breve entrará comigo na loucura do diferente.

Os “modelitos” são os mais variados. Tudo depende da sua raça e religião. Sei que é difícil de entendermos isso, pois no Brasil também temos muitas raças e religiões. Mas aí todos vivem juntos e misturados. Aqui vivem todos separados, e bem separados. Esse foi o primeiro paradigma que tive que quebrar. Praia não é sinônimo de união não. Cada um vem com seu grupinho e fica fechado no clã.

Os chineses não curtem muito, por causa do sol. Preferem as sombras das piscinas. As mulheres usam biquínis parecidos com os nossos e os homens bermudas de lycra. Também gostam muito de roupas de neoprene ou blusas de manga de lycra. As mesmas que usamos para “surf” ou esportes aquáticos. Eles usam para nadar ou curtir a piscina sem se queimarem. Para as chinesas e coreanas o bonito é ser bem branquinha.

Os muçulmanos também não perdem a oportunidade de se refrescar no mar. Existe uma vestimenta própria: "burca aquática". Assim apelidei quando vi o conjunto de blusa de manga com babado na cintura, calça e toca (tipo capuz balaclava que usamos nas motos). Lojas de artigos esportivos, como a Speedo vendem as peças. Mas o mais comum é você encontrar as mulheres de roupa e tudo. Não sei como o véu não solta quando mergulham. Presenciei a cena. Impressionante! Não soltou! Depois da onda, vão ao sol, sentadas na areia do mesmo jeito. Mal aguento de calor “meio pelada”. Como elas conseguem?

Já os homens muçulmanos podem tirar a camisa, mas ficam com a bermuda ou a calça que estavam. Não pense que é de algum material próprio. Não! É a que estavam usando no dia e pronto.

Os indianos são mais desencanados que nós. Vi eles fazendo de tudo. Entram de roupa social. Juro que vi com os meus olhos. Camisa social e calça social. Só tirou o sapato e o cinto. Alguns tiram a roupa na areia e ficam de cueca. Entram assim mesmo. Fico com vergonha alheia. Mas eles não estão nem aí. Outros que entraram de roupa mudam de ideia no meio do caminho e tiram dentro do mar. As mulheres são mais recatadas, entram com leggin e batas cobrindo o quadril. O tecido parece levinho, então não causa tanto espanto. Ou eu que já estou me acostumando.


Tendencia nautica na fashionista.

O importante é não se queimar.

Burca aquática na vida real.

E no meio dessa selva toda, aparece a brasileira de biquíni. Do mesmo jeito que os achamos estranhos, eles também nos acham. Um casal muçulmano estava “rachando” de rir olhando para mim e o marido enquanto andávamos a beira mar.

_ Acho que estão falando de nós! Do meu biquíni ou da sua sunga.

Enquanto só falam tudo bem. Pior é quando começa o assédio. Esses homens passaram uma vida sem ver uma mulher nua. Imagina o que acontece quando avistam uma “gringa” seminua.

_ Posso tirar uma foto com você?

A primeira vez que ouvi essa frase, estranhei. Tirar uma foto? Não era apenas tirar uma foto minha, mas sim comigo! Tá de brincadeira né? Virei atração de circo agora? Sim virei! Só que não era de circo, era de praia.

Veio o segundo, o terceiro, o quarto... Eu e uma amiga já estávamos cobertas com a canga e mesmo assim a menina islâmica tentava tirar foto de longe. Poxa até as mulheres? Pior, parece que não ouviam o NÃO. Detalhe, o povo daqui não entende a palavra não. Você fala e eles simplesmente ignoram. Pedem de novo ou saem fazendo na cara dura. Nem para disfarçar. Os maridos começaram a ficar bravos com as lentes apontadas para nós. E antes do tempo fechar resolvemos ir embora.

Hoje já estou acostumada. Prefiro as praias de maior concentração de “gringos” possível, mas quando não tem, como em algumas ilhas lindas e ainda selvagens da Malásia; vamos sabendo o que enfrentaremos.

A resposta é sempre a clássica:

_ Claro que não! Quer pedir para meu marido?

Assim eles percebem que tem homem por perto e se afastam.

Não por muito tempo, pois devem adorar o cheiro do perigo. Se eles soubessem...

Quando esquecem que estamos ali, voltam às atividades normais de jogar areia um no outro, enterrar o amigo, afogar, coisas tipo brincadeiras de criança. Mas são adultos fazendo. É engraçado e divertido de ver. Acabo rindo com a ingenuidade e simplicidade da brincadeira, enquanto passo mais protetor e viro a cadeira para queimar melhor.


Namoro de praia?

Brincadeira de criança por aqui é normal.

Tudo vale para se divertir.

Modelo a venda na loja.

Fiquei com vontade de provar um.

janeiro 03, 2016

Gili Air




"A simplicidade faz pensar no complexo."


Chegou a hora de relaxar! Nada melhor que escolher praia, sol e sombra fresca. Como no filme "lagoa azul" a pequena Gilli é rodeada por tons absurdos de azul e verde. A água cristalina com visibilidade a perder de vista, deixam os mergulhadores loucos.

Para chegar, apenas de barco. E dentro da ilha apenas bicicletas e carroças puxadas por burrinhos. Dizem que na alta temporada a ilha ferve de turistas, mas dei sorte de conhecer na baixa, onde só tinham locais e imigrantes que largaram tudo para viver a beira do mar.

Sabe o que é viver a favor do tempo? Seguindo o fluxo interno e refletindo sobre esse pulsar? Gilli desliga você. As horas no relógio não contam mais. Apenas o tempo da natureza passa a fazer sentido.


Mar paradisiaco. 

Essas eram as ruas.

Mal passava a carroça. 

Ponto de taxi quando chega de barco.

"O amanhecer e o morrer”.

O sol nasce todo dia como um bebê que vem ingênuo à vida...
Às nove da manhã já cresceu e ganha os primeiros raios da impulsividade e força de um adolescente, queimando de curiosidade pela vida...
Ao meio dia está imponente e com vigor total tal como um adulto...
Às quatro da tarde começa a enfraquecer e se preparar para o anoitecer, assim como um senhor que termina uma jornada...
A beleza da natureza está no nascer de cada manhã. O brilho de cada vida, com nova possibilidade de aprendizado...
O por do sol fecha o ciclo com sabedoria e majestade...
“Os momentos mágicos e secretos da vida imitam os céus mais lindos em cada nascer e por do Sol”.

A simplicidade faz pensar no complexo. Em como complicamos e acabamos não tendo tempo para nada. A vida passa e deixamos de desfrutar.

_ Quantos anos você tem? Pergunta na “lata” um marinheiro durante um passeio de mergulho.
_ Mais de trinta.
_ Nossa você é velha! A resposta honesta nos deixa tonta.
_ E você, quantos tem!
_ Tenho 23. Enche o peito de satisfação para dizer o jovem moleque já com rugas de sol.

Talvez para eles não seja um tabu falar da idade. Mais uma vez enxergam o tempo por outro prisma. Talvez trinta para ele eu seja velha, enquanto nós vivemos os novos vinte.

Nossa barraca de praia. Nada mal!

Nascer do sol.

Churrasco a moda de Gili. Você escolhe e eles preparam na hora.

Massagem olhando o mar.

Mais uma paisagem chata.

Parece montagem,
mas era a porta de um restaurante.